Estadão: "A história de uma diáspora"

'Arrancados da Terra' revela, com apuração profunda e envolvente, quem são os judeus expulsos da Península Ibérica pela Santa Inquisição e perseguidos também ao seguirem para a Holanda, a Jerusalém do Norte, e ao Brasil, a Jerusalém dos Trópicos


Julio Maria

Estadão, 25/02/2020


Condenado por praticar o judaísmo em segredo, Gaspar Rodrigues Nunes partiu em fila com outros sentenciados por crimes contra a Igreja Católica na manhã de 23 de fevereiro de 1597. Caminhava descalço, usando a túnica de linho tingido de amarelo para não haver dúvidas de suas traições à Santa Sé. Ao chegar ao Terreiro do Paço, à margem do Tejo, foram recebidos por populares ocupando seus lugares na plateia à espera do espetáculo dos aflitos. Assim que as sentenças fossem lidas e os acusados fizessem suas confissões, alguns seriam açoitados, outros exilados, parte torturada, uma porção deles desterrada e as almas mais delituosas da fé em Cristo seriam queimadas na fogueira da Santa Inquisição.


Gaspar Nunes, na impressionante reconstrução histórica feita pelo biógrafo Lira Neto, não é apenas um homem, mas um povo inteiro. Sua mulher Filipa, também judia, foi presa, torturada, separada dos filhos e encarcerada pelos carrascos do Santo Ofício por três anos depois de, já no cárcere, ser flagrada guardando jejum às segundas e quintas e jamais se benzendo às 18h, a sagrada hora da Ave-maria. Por negar-se a denunciar todos os judeus que conhecia, deitou sem roupas em um potro para ter os pulsos e os calcanhares amarrados à máquina de tortura. Antes de ser dilacerada, implorou e recebeu a chance de falar das judaizações realizadas com o marido havia 12 anos. Ao ser solta, segundo médicos enviados para avaliá-la, se tornou uma “mentecapta”, absorta na tristeza e dona de uma frase intrigante: “Eu tenho um fogo e um bicho dentro do meu coração”.


A história existe mais quando há nomes e sobrenomes, algo que a obstinação detetivesca de Lira Neto identifica, persegue, traduz, sustenta e entrelaça em sua narrativa sobre a diáspora judaica a partir dos séculos 16 e 17, quando Portugal e Espanha estão unificados sob as vontades de um mesmo reino e de uma religião absoluta e inconciliável com qualquer pensamento à parte de sua doutrina: a Igreja Católica.


Arrancados da Terra, livro que sai pela editora Companhia das Letras, trilha o êxodo do povo sefardita, os judeus ibéricos, em busca de sua terra prometida desde o antissemitismo que os expulsa ou escraviza na península unificada até a controversa chegada de 23 deles às costas da terra que seria um dia Nova York. Um caminho que perpassa a Jerusalém do Norte, como Amsterdã era vista por muitos por sua suposta maior permissividade religiosa, suposta até as decapitações em praça pública sob os mesmos beneplácitos da fé dos portugueses e espanhóis, e a Jerusalém dos Trópicos, como o Brasil é chamado durante o período em que a empresa bélica e de exploração comercial Companhia das Índias Ocidentais envia Maurício de Nassau e seus homens para a ocupação de parte da região que seria um dia o Nordeste brasileiro.


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