Diário do Nordeste: "A linhagem dos desterrados"

Escritor cearense reconstitui a perseguição que levou ao êxodo que começa na Europa até chegar aos EUA, passando antes pelo Brasil holandês. Ao olhar para o passado, Lira Neto faz pensar sobre o tempo presente, marcado por episódios de ódio, persecução e intolerância.


Dellano Rios

DN, 22/02/2021


Ao batizar seu novo livro, o escritor e jornalista cearense Lira Neto escolheu uma imagem capaz de traduzir, de forma precisa, a violência que define o destino de seus personagens: "Arrancados da Terra". O subtítulo extenso dá conta das peripécias narradas: "Perseguidos pela Inquisição na Península Ibérica, refugiaram-se na Holanda, ocuparam o Brasil e fizeram Nova York".


O fio da trama foi encontrada pelo autor numa visita a Manhattan, onde se encontra, com alguma dificuldade, o primeiro cemitério da congregação ibérica Shearith Israel, a mais antiga da comunidade judaica na ilha. Dali, Lira conseguiu traçar uma história, remontando ao passado, nos séculos XVI e XVII, que une elementos recorrentes em sua obra: a cultura e o poder - e é nesse, afinal, que irrompe a violência por trás da história de desterros do povo judeu.


Lira é, até aqui, sobretudo um escritor de temas históricos. Consagrou-se como biógrafo, de personagens tão distintas quanto Padre Cícero, a cantora Maysa e o "pai dos pobres" Getúlio Vargas. Em seu livro anterior, o autor já havia se mostrado disposto a deixar de lado histórias de personagens notáveis - ainda que elas sejam, de certa forma, retratos do coletivo. "Uma história do samba" contava da vida e da arte de muitas pessoas e das instituições de seu tempo. Aqui também, nesse "Arrancados da terra", a biografia é coletiva.


Impressiona mais a decisão de Lira Neto de recuar no tempo, para séculos que ainda não havia "visitado". "Até então, eu havia trabalhado basicamente com o século XX, no máximo tinha ido ao século XIX, quando fiz a biografia de José de Alencar", conta. O período explorado em seu novo trabalho, contudo, estava no radar do escritor há quase duas décadas. Nasceu de um interesse pelo chamado "Brasil Holandês" e, em especial, pela figura de Maurício de Nassau.


Jornalista de formação e experiência, Lira não perde sua conexão com o presente. Fala de outros tempos e, a partir deles, faz pensar sobre o que se vive hoje. Mesmo sua história da perseguição a judeus no Velho Mundo, no começo da Idade Moderna, diz muito do que vivemos hoje.


"Esse intervalo temporal, que aparentemente faz com que a narrativa torne-se mais distante do tempo presente, é compensado pela incômoda atualidade que a história destes episódios nos propõe", explica Lira Neto. "Além de ser uma história do século XVII, é uma história atual, na medida que trata de questões emergentes, contemporâneas, como a intolerância, o preconceito, a perseguição ou a tentativa de eliminação de todo aquele que é diferente", detalha.


Questões ao passado


A trama de Lira passa de um personagem ao outro. Todos eles partilham suas raízes judaicas, a origem ibérica e são afligidos por perseguidores. "Ele são perseguidos pela Inquisição, em Portugal; na Holanda, os judeus de origem sefardita se chocam com a ortodoxia da comunidade judaica estabelecida e, novamente, têm que partir. No Brasil, são perseguidos, primeiro, pelos calvinistas, depois pelos católicos. Ali, percebi que estava o sentido da história", reconstitui o escritor.


Quando iniciou o projeto, o mundo ainda não havia mergulhado de vez na onda reacionária que levou ao poder figuras extremistas e negacionistas. Ao longo da pesquisa, explica Lira Neto, a temática se fez urgente. "O compromisso de contar essa história não é apenas com esses personagens que ficaram lá atrás, mas também com o tempo presente. O conhecimento histórico é exatamente isso. Por isso, não existe obra definitiva sobre qualquer que seja o assunto. As perguntas que se lançam ao passado são as perguntas de hoje", avalia.


Não faltam, no presente, episódios que façam lembrar aqueles narrados em "Arrancados da terra". Do preconceito regional, vivenciado pelos nordestinos, lembra o autor, à questão dos refugiados e imigrantes na Europa. Algumas coisas parecem não mudar. "O discurso da intolerância vem acompanhado de uma reação antiluminista, um dos males dos dias que correm", compara.


E ao escritor que lança-se, repetidamente, nos domínios do passado, se questiona: porque não aprendemos mais com a história? "Ao mesmo tempo que há um visível interesse por parte da sociedade, em relação à história, por outro lado há um profundo desdém por ela, pelo conhecimento em geral. Não aprendemos com a história porque ainda somos cada vez mais negacionistas".


"No momento em que o conhecimento, a ciência e a tecnologia fornecem as possibilidades de saída para o impasse que a sociedade se meteu, ainda há quem fale em terra plana", reflete. Se não responde a essa questão, a leitura de "Arrancados da terra" dá lições de que se deve resistir, com as armas possíveis, aos golpes da intolerância.



 
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